terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

..a vontade do ser real. (parte 2) [fragmentos]

"Não percebi quanto tempo se passara. Tantas ideias, vontades e desejos explodiram em um turbilhão de pensamentos que eu nem percebi que havia deitado e que Lucibelli não estava mais ali. Devem se ter passado algumas horas ate que percebi estar olhando para o vasto manto negro cheio de furos prateados a rodear a grandiosa esfera amarela que recortava as nuvens que se aproximavam. Me sentei com um espanto e olhei ao redor, era onde eu estava a algum tempo atrás, antes do corvo cruzar minha visão. Teria sido tudo aquilo apenas um sonho? Teria adormecido enquanto me relaxava apaixonado pela Lua e todo seu encanto?
Me curvo um pouco e seguro a cabeça com as duas maos entrelaçadas em minha nuca e balanço fortemente para tirar um sono que parecia estar tentando se apoderar de meu conciente. Me espreguiço e levanto para andar um pouco pelo local. Ando olhando para cima, toda aquela beleza hipnotizante e vejo as luzes da cidade. Lembro que tinha ido até ali de carona. A motorista ate estranhou onde pedi para me deixar.. lembro que ela era bonita. Receei por tentar aprofundar algum contato a mais e pedir o telefone para conversarmos mais tarde.. mesmo ela parecendo que se interessava bastante em mim enquanto estávamos na cidade, onde a conheci. Só não consigo lembrar o nome dela. Nunca fui bom com nomes. Acho que era algo como Isabela ou Julianni.. bem, vou ter de pensar na volta, será um caminho longo a pé.
Com as mãos nos bolsos e muitos pensamentos a correr, sigo na direção do clarão além das montanhas conversando comigo mesmo em um tom relativamente baixo. Algumas risadas não são contidas, afinal, tudo aquilo que fora esse sonho chega até ser engraçado. Mas pareceu tão real.
Uma dor pequena surge em minha mão direita quando esbarro nas chaves que estavam em meu bolso. Ao retirar a mao para verificar o que era, vejo um pequeno corte que voltava a sangrar. 'Onde havia me machucado? Será que algum bixo fez isso? Um morcego talvez... mas um corte? Não... ' - em meio a estes pensamentos, ouço um barulho de motor que vinha de trás de mim e que provavelmente seguia para a cidade, para minha sorte.
Paro e espero se aproximar para tentar uma carona de volta.. será que ajudariam um maluco no meio do nada a essa hora da madrugada? Faço o sinal com o polegar quando o carro joga seus faróis em mim e quando ele chega bem perto, para a minha surpresa, era Isabela/Julianni novamente.

- Vejo que não conseguiu nada ein cara.
- Você denovo por aqui? Quais são as chances?
- Bem, entra que te levo denovo.
- Vai mesmo me dar carona ainda? Primeiro peço para me deixar aqui, depois de não sei quantas horas me encontra vagando que nem um lunático no meio do nada a essa hora da madrugada.. não tem medo?
- Ah! Medo que nada.. vamos entra aí.

Garota estranha e interessante.. desta vez eu vou pedir o telefone, tá mais que na cara que consigo fácil.

- E você, onde foi para voltar esse horário? Se é que me permite a resposta.
- Resolver alguns negócios.. sabe, quando aparece algo não posso deixar passar assim tão fácil.
- Sei, sei...
- E você? Abandonou o que veio fazer aqui?
- Bem, nem eu sei bem o que eu vim fazer aqui sabe... mas eu acho que foi idéia de criança o que tinha em mente. Ao menos pode render boas risadas em alguma conversa no futuro. Qualquer burrice rende.
- Certo.. e realmente não vai tentar mais? Afinal, é uma de suas últimas opções não é?

Com essas últimas palavras eu viro rapidamente o rosto para ela e fico com uma expressão de dúvida por muito tempo a encara-la. Algumas vezes ela me lança olhadelas para não tirar o foco da estrada e algumas vezes um pequeno sorrizo eu podia perceber ser contido em seus labios. Lábios finos e perfeitos de sua boca desejada... sinto uma extrenha atração exagerada por ela e volto meu olhar para a janela do meu lado. Acho que ouço ela rir bem baixo.

- Eu te contei sobre isso? Minha memória tem andado um caos mesmo... ou eu desesperado demais por ajuda e acabei por te contar tudo para ter uma compreensão amigável das coisas..
- Relaxa.. nem tudo é tão planejável assim. A mente humana tem lá suas maneiras de ser bem interessante.

Ela começa a acelerar e quando olho para ela, um sorrizo agora está estampado em seu rosto. Engraçado era que ela me era mais familiar do que quando a conheci na cidade.. uma sensação estranha percorre meu corpo e olho para a estrada, não estávamos indo para a cidade, pois a silhueta da montanha não brilhava pelas luzes de lá, no horizonte.

- Onde você está me levando?
- Meu caro Christian... eu disse que ia te levar denovo... aonde que te levei a primeira vez?
- Como assim? - a voz dela começava a me excitar agora.. o que era aquilo? Começo a ficar com medo e ansiedade.
- Ora! Já se esqueceu?
- ...você me levou lá perto da encruzilhada do matadouro.
- Não é isso! Já se esqueceu de mim?
- Co..como?! Não.. nos conhecemos na cidade a três dias, eu estava na biblioteca checando alguns livros e você sentou do meu lado. Puxei conversa pelo livro que você estava lendo. Me pareceu um assunto um tanto estranho pra alguém tão bonita. Então nos encontramos denovo no dia seguinte, você estava indo ao... - me interrompeu secamente:
- Digo novamente: não é isso.
- Então o q..!?
Ela tira a mão da marcha e poe em minha virílha. Não entendi aquilo mas um calor percorreumeu corpo todo e não posso me controlar. Esse extase por algo sexual eu nunca havia sentido antes.. estava intenso demais e sem nexo algum...
Ela solta uma gargalhada e da um cavalo de pau com o carro e minha porta se abre me fazendo voar para fora e rolar na grama. Ao menos não me machuquei. Não muito.

- O que é isso?

De dentro do carro Isabela/Julianni diz em tom calmo e aparente deboche:

- Vamos terminar as coisas pois, como eu disse, não tenho toda a noite.

Derrepente tudo fez sentido.

- E, por acaso, o nome é Lucibelli, não Isabela ou Julianni. E não, como pensou antes, não coloquei isso em sua cabeça como todos esses pensamentos sórdidos convidativos.

Ela terminava de descer do carro e me olhava com olhos maléficos e sedentos. Um brilho avermelhado faiscava daqueles dois pontos de sua cabeça. Ela fecha a porta de onde eu saira arremessado e cruza os braços batendo impacientemente o pé esquerdo, balançando levemente seus quadrís perfeitos.

- Te deixei por duas horas e mesmo assim não conseguiu decidir o que quer por sua alma? Estou te dando algumas sugestões bem... prezerosas, para acelerar essa decisão. Além de tudo, odeio quando vocês demoram demais e me deixam pastando tempo que vocês não poderiam desperdiçar.
- Então vou pedir pra que você pare de me tentar assim, só me faz demorar mais em escolher. Não vou perder a alma com isso. Além do mais, tenho outros planos para a suposta forma de pagamento.
- É mesmo? Que interessante meu caro Christian! E como eu não consegui ver isso aí dentro?
- Bem, como você mesma disse "a mente humana tem suas maneiras de ser bem interessante".
- Bom... muito bom. Então, vamos lá. Faça a oferta que eu, depois dessa brincadeira toda com você no carro, estou até de melhor humor. E sim, nós temos humor, não é por sermos seres extraplanares que não podemos gozar.. de tal privilégio.

Estas ultimas palavras senti como sendo uma piada e até esbocei um sorrizo. Parecia realmente que ela estava se agradando com tudo isso. Será que demônios também sentiam falta de se entreter?
Deixando estes pensamentos sobre o comportamento de demônios de lado, ordenei novamente algumas das idéias que tinha para tratar com este que se encontrava em minha frente, sedento pela minha alma. Mas também estranhamente interessado em minha compania.


___________________________________________________________________"

não é inrolação.. mas não era quase nada disto que eu iria escrever hoje
engraçado como a mente muda mesmo..
..relamente, a mente humana é bem interessante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário