..três passos e então eu estaria morto. Saber exatamente assim quando se vai morrer é uma coisa muito estranha.. a sensação que se tem é mais de duvida do que de ansiedade ou medo.
Dois passos. Reflito sobre tantas coisas que se passaram que não consigo se quer pensar em nada direito. A vida toda passa diante dos olhos e é como se você acelerasse um filme, mas conseguisse ver cada quadro que se passasse mesmo não entendendo ou conseguindo raciocinar toda aquela informação, mas ao mesmo tempo você sabe toda a história que se passa em cada trecho que você tenta raciocinar o que era aquilo.
Em alguns milésimos de segundo toda minha infancia se repete em minha mente, todos os choros, todas as brigas, todas as brincadeiras. Animais de estimação, jogos, presentes... casas, amigos...
... nesse turbilhão todo, eis que surge o dia da tempestadeque desencadeou todo o futuro até esse exato ponto. Alí, naquela varanda, na noite em que decidi descer pela árvore de romã para o jardim da frente de casa e que escorregei e acabei indo para o hospital. Alí, quando eu caía, acabei por entender o por que dos pais sempre se preocuparem com o que fazemos e por até nos punir quando nos aventuramos. É o medo da perda, pois eles sabem que somos capazes, mas não querem arriscar que algo ocorra conosco.
Quando me dei conta, estava voltando a memória para outras "aventuras" que tive em sítios, praias, acampamentos... uma outra em específico teve peso em detalhes quando foi repassada. Em uma caminhada por trilhas no meio do mato, decidi correr para ser o primeiro a ver como estaria uma velha árvore que tinhamos construido uma cabana improvisada e lá imaginavamos mundos e monstros inigualáveis e fantásticos. Então, na euforia e competição para ser o primeiro, acabei por chamar a atenção de algumas pessoas que estavam pelo local. Ao chegar na clareira que se conseguia avistar a cabana por entre alguns galhos, aqueles que eu havia atraído acabaram por me alcançar antes de meu grupo. Eram marginais e uma presa como eu era tão fácil que estavam rindo e fazendo movimentos debochados enquanto falavam intimidando e se aproximavam. Mas não contavam que eu tinha um forte e nele poderia me abrigar até que o resto chegasse.
Corri mais do que o vento e escalei a árvore melhor que um macaco. La de dentro, vigiei até que eles, ainda debochando e rindo, se aproximassem e começassem a escalar a árvore para me pegar. O que eles não contavam era que também nos protegíamos do mundo real e entao, uma chuva de pedregulhos e cascas grossas de arvore começou a castigá-los nas cabeças. Quando se recomporam, com ira nas mentes e achando que seria melhor fazer aquilo rápido pois eu merecia uma lição, meu grupo chegava já os abordando com ponta-pés e voadoras sem mesmo que pudessem entender o que era aquele turbilhao de agressões.
Eu sei que você foi quem avisou para todos que seria melhor apressar o passo por que eu me meteria em encrenca.. sei que conhecia melhor os arredores do que eu e que sempre me protegeria.
Mais um único passo.....
...ao esborrachar no canteiro e praticamente triturar algumas costelas e meu braço direito, você ainda apareceu e controlou a situação completamente imutável. Sabia que se expressasse ou deixasse algum medo ou sentimento aparecer naquela hora seria muito pior para mim e para todos. A bronca por tentar escalar uma arvore num temporal daqueles viria depois, naquele momento era tempo de tentar me salvar. Não me lembro de quase nada até acordar no hospital, fiquei inconciente depois de um tempo por perder sangue e pela dor que inundara minha mente, mas você me contou tudo, ainda com um sorrizo no rosto e fazendo toda a situação ficar cômica depois do desespero geral.
Você sempre soube o que fazer e quando fazer.. sempre foi um exemplo e me ensinou tudo o que sei e demonstrou como se viver da maneira correta e digna de uma pessoa boa.
...e hoje, tomando este ultimo passo, sei que morro também, pois o mundo é um lugar mais frio e cinza depois que soube de você ter tido um infarte fulminante e mesmo com socorro não ter superado aquilo. Ao entrar nessa sela e o ver em um caixão, mesmo assim ainda espero que você salte daí de dentro e diga que tudo isso não passa de uma brincadeira de mal gosto mas que era mesmo assim engraçada... mesmo vendo todos chorando, não consigo nem se que me entristecer. Talvez eu não acredite ainda ou talvez seja isto outro tipo de morte. Não consigo sentir nada, nem com as lembranças que correram em minha mente antes de lhe ver no estado que se encontra. Talvez eu me recuse a acreditar e quando o fizer, ressucite e sim quase morra por entender o que está acontecendo. Mas até o momento, ainda estou morto e passos serão sem sentido ou motivo na vida, ate que eu consiga aceitar o que tiver de ser aceito ou entender o que houver de ser entendido.
Até lá, um corpo repousa enquanto o outro, segue.
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