"Sentado parado ao relento da chuva, sentindo cada gota a acariciar levemente o meu rosto artente pelas lágrimas que derramo mistas à tempestade que desagua a minha volta. Estou a extravazar minha ira e sofrimento em plena tormenta dos céus, pois em conjunto com tal evento, não ha como se perceber o que se acontece comigo.
Começo a caminhar para algum lugar que minha concienca manda, com o rumo dependente apenas do acaso de se pensar que seria melhor tomar a esquerda do que a direita, pelo simples fato de se virar ao chegar na opção. Sigo sem nem ao menos saber o quanto ando, quantos passos, quantos minutos. Todo imerso em mim, profundamente enterrado em pensamentos sem nem se quer ouvir o esbravejar do motorista que quase sofrera um acidente de transito ao evitar que me fizesse sofrer um atropelamento, cometido por
ele mas pela culpa de mim mesmo.
Então sigo em torpor, deixando as pessoas indignadas e perplexas, confusas e nervosas, mas logo em seguida, não existindo.
Afinal, nada existe.
Não há.
Sinto que não me movo mais, quando percebo, ja devia estar ali faz tempo a olhar sem foco para a estatua de São Benedito, o padroeiro da cidade. A igreja estava fechada hoje. Não havia missa. O casório havia sido cancelado pelos temporais. Os mortos poderiam esperar um dia para serem lembrados em seu sétimo dia. Até os mendigos ali não estavam. A chuva levava tudo.
Só não a mim...
..o único que realmente desejava ser lavado.
A conciencia é recuperada após o torpor imutável e então começo a conseguir pensar voluntariamente me perguntando aonde diabos eu deveria estar. Tento reconstruir os passos mas nada me vem em mente e então eu começo a olhar em volta.
Tudo deserto, desligado, fechado, morto.. sem vida. Parecia que a chuva era um demonio horrendo que sugava a alma de todos e então todos debamdaram em ligeira fulga afim de guardarem suas preciosas passagens ao paraíso.. mas não eu.
Não me importei de estar totalmente encharcado e nem de não ter a mínima idéia de onde eu estava. Comecei a caminhar lentamente começando a pensar e lembrar... um sorrizo começara a brotar em minha boca quando me lembrei de que ela não só adorava chuva, mas me arrastava para que pudéssemos sentir cada gota e lufada de vento, independente do temporal ou garoa que estivesse a cair. Lembro de brincarmos sempre e acabarmos caindo e rolando nas poças, com lama ou não, sem se importar com a sujeira que poderia conter naquelas águas..
..me lembro do primeiro choque ao nos entrelaçarmos e olharmos fixamente um para o outro após uma gargalhada e conseguirmos ver dentro de nossas almas.. e as mesmas clamarem pela união.
E então me lembrei onde eu estava.. me lembrei o motivo daquilo tudo.
Eu a perdera.
A perdera e não conseguia aguentar, mas resolvi pedir ajuda àquela que não julga a quem molhar.. tantos os justos quanto os pecadores, os ladrões e os incorruptiveis, demônios ou anjos.. ela lava a todos com igualdade e refresca a existencia do espírito de cada um.
E então foi o que acontecera, em minha frênesi de desespero pelo ocorrido... e foi por isso que me trouxera até aqui.
Eu a perdi.
E fora aqui que a velamos.. a estatua não era de São Benedito, mas de Gabriel, o arcanjo.. guerreiro e anjo da morte. Ele preza pelas sepulturas que rodeiam toda a extenção de onde eu me encontrava.
A igreja estava fechada não pela chuva ou pelo dia, mas por não haver ninguem a ser velado naquele momento.. e ali fora onde eu me despedi pela ultima fez.
A chuva me guiara para cá. Gabriel deve ter me guiado.. e ela também.
Comecei a entender tudo.. eu não a perdi. Quem perdeu, fora ela a mim. Eu sempre hei de me lembrar e conseguir fazer com que reavive os sentimentos de quando estávamos juntos, mesmo que em menor intensidade... mas sempre me sentirei com algo a se ter. Ela não.. ela nada mais tinha.
Alguns reclamam de ter 'perdido' as pessoas, mas elas sempre estarão lá, a aguardar que se as recupere..
..eu não conseguirei, até que a mim seja permitido regressar ao lado dela.
Enquanto isto, seguirei o caminho a recordar sempre de ter força e nunca fazer que seja tristeza ou desespero que a falta dela me tragam. Afinal, aqueles que nos fizeram bem em vida, não desejariam nos trazer amargura em morte.
Sempre estarei com um sorrizo além das lágrimas a esperar por ela."
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