" Eu a disse, 'ninguem pode entrar', mas ela continua a insistir não me dando ouvidos, ou se importando com nada do que lhe expliquei.
Depois de algum tempo, me encontro nessa situação novamente... não ha como escapar, se você deixa um espaço, por mínimo que seja, sempre as coisas tendem a evoluir, crescer.. as vezes até fogem de seu controle e se você não faz nada, geralmente se torna uma situação de proximidade fraternal, mas as vezes, se torna algo mais íntimo e daí se complica mais... mas ambas situações significam desastre para mim.
Ela se aproxima mais, me abraça e acaricia minhas costas sussurando palavras em meu ouvido esquerdo... ela sabe o que faz. Assopra em meu pescoço, um pouco abaixo de minha orelha logo que acaba de falar e desliza sua mão direita para minha
nuca. Se afasta um pouco e olha dentro de meu olhos... Seus olhos estão com uma coloração muito peculiar. Proximo as bordas estão castanho esverdeados e seguindo em direção à pupíla vão se tornando de um tom azulado vivo, como se rajadas de tinta tivessem sido jogadas apartir de seu centro..
Muito antes de me tornar o que sou, eu já temia de alguma forma os olhos das pessoas... acho que desde criança consigo ver algo por eles. Mas antes sei que não tinha medo pois ainda a inocencia da infancia me protegia de alguma forma... isto, assim como quase tudo em nossa infancia, foi alterado à medida que fui crescendo.
Eu a avisei que não posso deixar ninguem passar mas mesmo assim ela continua, agora me empurrando gentilmente em direção ao quarto, um pouco cambaleante. De certa forma eu que acabo conduzindo-a, pois parece que não tem muito controle de sua coordenação motora. Eu devia tê-la deixado cair ou algo assim. Dai ela ficaria estendida no tapete da sala, ou ate mesmo no chão do quarto e poderia simplesmente dizer algumas palavras sem sentido antes de adormecer. As coisas se resolveriam mais fácil para ambos os lados.. porém não consigo me conter por completo e entro em seu jogo. Faz tanto tempo que não jogo assim que não me recordo direito o que faço ao certo...
Olhos são a "janela para a alma"... quando realmente me dei conta disto, quando comecei a decifrar as pessoas e ver quem realmente são, foi quando comecei a temer estas "passagens". Naquele dia fora a primeira vez que tive contato com a frieza que eu convivo hoje... fora o primeiro passo para me tornar o que sou. Não posso saber se amaldiçoaria ou agradeceria Frank por ter sido quem foi, ou feito o que fez. De certo, naquele ponto de minha vida, a decisão fora crucial para o resto que seguira até hoje... quaisquer mínimos detalhes que fossem mudados, com certeza me levariam a caminhos muito diferentes.
Quase perco o equilíbrio quando a parte de traz dos meus joelhos se encontra com a cama da suíte em que estamos passando estes últimos dias. Consigo rapidamente me conter e sustentar, não com muita facilidade, nosso peso, pois ela tropeçara e se apoiara completamente em meu peito com o rosto como se eu fosse uma parede que ela não tivesse percebido ao estar correndo em direção a algum lugar. Ela ri um pouco, de uma maneira que apenas as pessoas não sãs conseguem e recua um pouco a cabeça, apoia a mão esquerda em meu peito, a mão direita leva perto do nariz com o indicador estendido para o meu, fechando o olho esquerdo e fazendo uma expressão de deboche dizendo "esperto você! quase caímos e isso num seria legal, né?" então volta a se deitar em mim, com carícias como se eu fosse um travesseiro "você sabe o que quer.. por que não posso ter também?"
Com estas palavras ela me empurra e perco o equilíbrio... ou simplesmente me deixei cair? A esta altura, não consigo destinguir direito... estou cedendo por completo o controle, é o que parece.
Não... não posso deixar levar assim... isto nunca é bom, me torna vulnerável.. de todas as maneiras! Tenho de agir rápido se não irá acontecer tudo denovo... todas as vezes que baixei a guarda me foram prejudiciais... usaram isto contra mim... de todas as formas... fiquei emotivo demais e acabei arriuinando situações por mero capricho... em troca de momentos que me assombram até hoje e dores que são muito piores do que a suposta felicidade que me traziam... sempre acabo por ter de ficar quase meses inteiros para colocar minha cabeça no lugar.. e sempre nesse tempo de reestruturação, tenho de também recorer mais à aquilo que tenho de usar para manter distante estes desejos que desencadeiam toda essa tragédia incontrolável.
Não, não posso me envolver!
Mas.. faz tanto tempo... meu outro refúgio me destrói, mas este realmente pode me matar... sempre se torna um ponto fraco e sempre é desastrozo para todos...
Estou estirado na cama, braços semi-estendidos jogados ao lado do corpo, olhando para o teto e neste meio tempo de reflexão rápida e conturbada, ela sobe na cama de joelhos e vem em minha direção, lentamente.
Olho para seu rosto e seus cintilantes olhos azuis esverdeados se encontram novamente com meus, castanhos escuro, e me confirmam tudo que eu já esperava.. vontade, instinto, certeza, sentimento e embriaguez...
"Isto não é certo. Não posso, já te disse...", digo enquanto me enclino e apoio em meus cotovelos para poder levar as mãos para perto do bolso do paleto do meu terno.
"Por que não pode? Podemos tudo que quizérmos, principalmente você.." diz ela enquanto tira seu charpe preto "... você é mais livre que todos. Inclusive..." sua blusa vermelha e, se enclinando lentamente em minha direção, baixando seu rosto perto do meu e olhando fixamente dentro de minha alma, disse, com toda sinceridade do mundo ".. mais do que eu...".
Com isto, o beijo que não ocorreu ficará em minha mente por um longo e tormentozo tempo, que teve inicio nos poucos eternos segundos que permaneci fitando o teto enquanto ela pendia inconciente sobre mim, novamente estava sobre controle da situação. Mas isto não significa que estaria tudo bem ou que eu havia sido o vencedor.
Após um breve e inconciente abraço eu a deito ao meu lado e retiro a ponta da agulha de seu pescoço. "eu disse que já a estava fazendo um favor... e disse que não iria fazer outro.. mas estou por fazer..." digo ao me sentar encurvado na cama, olhando sem ponto especifico para o chão, perdido em lembranças que mesmo sabendo que aconteceriam, mesmo com certeza que eu perderia o controle e teria de passar novamente pelo processo de reestruturação, mesmo sabendo pela dor que eu sentiria para voltar ao que tenho de ser... voltar ao que sou... eu me deixei levar.. por puro capricho novamente... por momentos que sei que não poderiam nem chegar onde chegaram... ".. o sonífero deve a deixar apagada até o amanhecer...".
Olho para ela. Linda como uma escultura, uma pintura... novamente a vontade me vem, mas desta vez é forte o suficiente para que eu a perceba e a distingua.. mas por um instante consegue ser tão forte que sinto um breve delírio com sua pele morena, seus finos lábios, seus seios, suas pernas... mesmo ainda estando com sua langerie preta, sua saia, meia calça e um sapato, me perco em suas formas tão perfeitas... tão... equilibradas. Então seus olhos passam em flash em minha mente, como um soco no pensamento, me dando um breve momento de atordoamento.
Me levanto. Os cinco segundos que se passam me parecem dias infindáveis de batalhas e decisões... mas não, 'meu propósito é outro e não tenho mais o luxo de prazeres como este..'. Viro o rosto para o lado pegando minha maleta que estava do lado da cama, olho a porta do banheiro entreaberta e penso - 'preciso me livrar destas memórias...' -.Ates de entrar me viro uma última vez e a admiro, dormindo provavelmente um sono dos anjos, proporcionado pela droga que circula por seu esculpido corpo, indo a lugares que eu desejaria estar... então fecho a porta olhando para o espelho e colocando a maleta em cima da pia concluo 'preciso aliviar esta tensão.. e acabar com esta vontade..'. Nunca me orgulhei desta parte, mas sento dentro da banheira e faço o que tem de ser feito para meu próprio bem. Olho novamente para o que estava na maleta, relutante com o fato ".. outra vez, tenho de me rebaixar a isto... mas não há outra maneira... para se privar de algo, tem de se ter outro em troca...". Fecho os olhos e antes que comece, as lembranças retornam uma por uma.. em sequencia exata... primeiro Emily. Logo depois Patrícia, Frank, Guilherme, Júlia e, por fim, a mais recente pelo visto e a que além de mais vontade despertar, mais dor causa agora...
...Ana...."
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