quinta-feira, 8 de março de 2012

o rodapé da vida. [fragmentos]

Fico a observar o copo vazio enquanto o barman volta para enche-lo com outra dose. Parece que consigo ver em camera lenta a pequena cascata que se faz do bico do dosador ate o fundo do copo, que vai mudando de cor e ganhando volume ate chegar na medida certa, quatro dedos, puro, sem gelo.
Ainda fico a observar o copo, a admirar aquela simplória mas bela visão. A iluminação, o ar levemente enfumaçado, o reflexo invertido e disforme do mundo na bebida e no vidro. Me vejo viajando para tempos passados novamente, a mente a buscar as coisas que não tem volta. Se é que ja tiveram algo real um dia.
Penso em Clint e como ele me ajudou com aquele maldito Dominick e seu complexo de inferioridade, mas extremo senso de justiça. Bebíamos um belo whisky que havia encomendado direto do Texas para me sentir bem imerso naquilo tudo. Ajudei em cada decisão que deveria ser tomada e até contra a vontade de Dominick, pessoas tiveram suas vidas tiradas pelas balas do revolver de renegado que ele portava.
Pego o copo e me lembro como se fosse hoje o ultimo gole que tomei antes daquele tiroteio que matou seu irmão caçula, de quem tanto tinha afeto, e o fez perder de vez a sanidade e ter a sede de sangue para dizimar toda aquela vila do condado de Western Spring, habitante por habitante, tiro por tiro, até que suas balas acabassem e ele corresse de encontro à guarda municipal com rifles em mãos, com apenas uma faca na boca e um facão empunhado. Lembro de ver seus olhos perdendo o brilho e ele tentando enchergar por dentro de minha mente, para tentar entender o que eu era. Entender o que ele era.
Um gole e o gosto de madeira com ferro faz minha mente fervilhar um pouco, trazendo outras lembraças à tona. Todas elas regadas ao bom e velho whyski.
Certa vez, William que fora meu guia para ter com Ruadh conselhos sobre matrimônio e viagens rumo as highlands, na Escócia, que queria se descobrir pois desde a morte de seus pais ele achava que estava trilhando o caminho próprio, mas era apenas a sombra do que restara de sua família.
Lembro do exílio que ele se submeteu, vivendo em uma choupana tosca reforçada com algumas pedras e se alimentando com a prórpia caça. É algo bom a se fazer para espairecer e tentar conectar-se com seu interior e exatamente por isso que anos se passaram nessa aventura de auto-descobrimento. Quando saqueadores tentaram lhe matar, ele, mesmo tentando dissuadir os criminosos para que não fizessem aquilo, se defendeu como o animal que procurava entender. Não teve escrupulos ou se quer noção do que acontecera. Apenas que abrira a barriga de dois dos cinco que achavam estar se divertindo, com uma pedra lascada que estava em seu alcance e, quando os outros três começaram a entender o que acontecia, Ruadh ja delogava outro e pegava uma tora de madeira para terminar com os que restavam.
Lembro de presenciar todo o banho de sangue saboreando um belo whyski originalmente escocês e de ver Ruadh arrancar as tripas de cada um e preparar a carne para um jantar tanto quanto macabro, visto por costumes não-canibais, e eu recusar se quer uma prova.
Tantos casos se passam em minha mente ate que o copo estivesse vazio denovo. Paro e olho em volta. Algumas pessoas sentadas em mesas acompanhadas de alguem do sexo oposto ou de mais pessoas, seus amigos pelo que me parecia. Eu ali, sozinho, com todas essas memórias. Melhor acompanhado do que a maioria ali, com certeza.
Vejo alguem bebendo vinho e praguejo o nome de Brahl. Aquele maldito metido a aristocrata e bom-de-vida quando na verdade não passava de um bêbado sem nem ter onde cair morto direito. Metido a intelectual, balbuciava palavras muitas vezes sem nexo a platéias entorpecidas tanto quanto ele, a crer que a multidão, além de o adorar, o entendia e o admirava por tanta sabedoria. Aquele prédio abandonado, cheio de rejeitados pela sociedade, se passara de castelo de um reino moribundo e perdido, esquecido pela realidade. Todos ali eram loucos, mas mais sãos do que aqueles que imaginavam existir. Esta temporada eu apenas me mantive no cigarro. A nicotina me mantinha na linha do que devia ser feito, enquanto Brahl falava incansavelmente em meus ouvidos, em seu delírio tóxico, sobre os criados que tinha e batalhas que travara, que se quer nunca haveriam de existir. Não para aqueles, fora dos muros do castelo daqueles serem mejestosos. Mas para mim também estiveram ali. São tão reais quanto Sônia, a assassina que teve a cabeça a prêmio quando negou fazer um serviço por começar a ter um ataque de justiça e apenas executar criminosos.
Ah Sônia. Quantas noites sonhei com você. Viciada em vodka, exímia atiradora de facas e habil com fio de nilon como ninguem. Sorrateira como uma cobra e silenciosa como um felino. Era uma arte todo o seu existir.
Pena que uma emboscada a levou a ter um projétil de sniper no meio de seu cerebro.
Sua dor, que não aconteceu por tamanha precisão do atirador, transbordou em mim. Mas era o desfecho que tinha de acontecer.
Me levanto e vou ao banheiro para aliviar a pressão que todo aquele alcool estava fazendo em minha bexiga. Tento traçar um caminho linear, mas em vão, havia horas estava ali a ingerir sabe-se lá quanto da garrafa de Jack Denniels daquele bar.
Todo meu esforço me lembrou do treinamento do jovem Brian. A cavalaria o esperava mas sua esgrima era péssima. Ele talvez acabaria por se tornar um ferreiro e escritor, mas ainda haveria de tentar superar aqueles malditos movimentos de pés, que sempre achava que eram mais dança do que esgrima. Lembro de sentir o cheiro daquela cerveja quente e amarga da época e de até provar o queijo e o pão. Sempre quis provar o javali.
Me aliviando, lembro do pobre Steven, que teve sua vingança concluída e até urinara na boca do cadáver do maldito que o violentara quando mais novo. Mesmo ele não sendo o principal da história, esse desfecho foi bastante satisfatório.
Penso em beber apenas refrigerante e água agora para me recompor e também me lembro de Eric, puritano que apenas consumia o que a terra que plantava lhe concedia e que perdeu a fé pelas desgraças que descobrira  na cidadela que vivia. Atrocidades aconteceram até com sua irma. Então saíra pelo mundo para profanar seu corpo em revolta a tudo que passara por uma mentira. Brindamos ao sabor de um Golden Label e confabulamos várias prozas e conquistas. Por fim, ele acabou por entender que a culpa daquilo tudo eram apenas dos próprios seres humanos e voltou a abraçar a fé. Mas a fé modificada pela percepção da vida que conheceu.
Todos estes e muitos outros, dentro de minha mente, dentro de meu ser.
Aparentemente ficando mais sóbrio me levanto e me dirijo para a porta, era hora de ir.
Mas ir aonde, se não apenas para a minha cama que se encontra atrás de mim, pois afinal, como todas estas lembranças, o que acabou de passar não foi apenas mais uma história que acabei de escrever?
Encerro a escrita, fecho o cardeno, me levanto tampando a garrafa de whyski após apagar o cigarro e durmo.

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