- Seus dois e cinquenta de troco senhor.
Eu estava aéreo até agora com a notícia. Depois daquelas palavras, eu não conseguia focar em nada.
- Ah, obrigado. - disse retornando e pegando as moedas com a atendente do bar.
Tive de parar para tomar umas cervejas e tentar reciocinar melhor. Ou apenas raciocinar.. as mesmas palavras eram o que vinham em minha mente. Sempre as mesmas palavras dando a novidade.
- TÁ MALUCO CARA?! SE QUER MORRER ESCOLHE OUTRO CARRO! - diz um motorista furioso que quase causou um acidente para nao me atropelar, pois eu estava atravessando a avenida sem olhar nada. Sem nem ao menos saber que eu estava atravessando.
Eu apenas andava sem rumo, sem saber o que estava fazendo, sem conseguir focar a visão. Na verdade, a visão não estava ativa, apenas os olhos abertos visando o chão mas sem enchergar.
Eu andava no automatico, as pernas indo para frente e para trás apenas, sem distinção de velocidade ou trajeto.
- Seu mal educado! - esbravejou uma mulher, devia ter seus vinte e sete anos, por eu ter trombado fortemente com ela e a feito sentir o ombro machucado. - Seu idiota! - tentou ainda ver se dava atenção mas após ver em que havia batido, simplesmente voltei meu olhar para o chão e pressegui a caminho sem sentido. Talvez ela tenha continuado a gritar, talvez tenha ficado mais indignada e prosseguido com seu dia ou tanvez até tenha entendido que aquele homem não sabia nem quem era naquele momento e me perdoado. Ou me taxado de bebado/drogado.
Mas eu nem sabia se tinha colidido com algo, apenas lembro agora no que foi quando relembro tudo o que aconteceu no dia e refaço meu trajeto incoerente e inconsequente.
Lembro também de ser assaltado. Apenas olhei para o assaltante e voltei a olhar para o chão. Foi assim que consegui esse corte na mão, provavelmente tirando o objeto cortante que ele me ameaçava de minha frete, ou onde quer que ele tenha posto, para prosseguir. O que o deixou bastante perplexo e o afujentou. Tá aí uma ótima tática para fugir de assaltos, se fingir de louco.
Passei em uma tabacaria e comprei alguns cigarros caseiros e charutos. Eu não fumo e apenas pouquíssimos tragos consumi em minha inteira existencia de 32 anos, mas aquilo me era sugerido pela Voz em minha mente. A Voz certa, falava claramente agora. Talvez apenas nesses momentos de pura conturbação, em que a mente está aérea ao extremo, se possa distinguir a verdadeira.
E ela pedia cigarros.
Parei na praça que havia perto e fumei dois ou três. Sem nem tossir. Mesmo sem ter o costume eu fazia como um fumante costumeiro.
Logo o dia estava se encerrando e eu finalmente comece a caminhar com um destino certo.
Percebi que de certa forma, um pouco distorcida por pegar ruas erradas e as vezes dar voltas, eu estava fazendo este caminho afinal. Mesmo inconciente, sabia onde deveria ir.
Conseguindo finalmente ter controle de todas as minhas ações, pego o celular. Trinta e nove ligação não atendidas. A grande maioria dela. Também eu desligei o celular sem falar nada, logo depois de receber a notícia. Até me sinto um pouco envergonhado por isso.
"Casa da donmaria. 15min." A mensagem curta e direta assim todos saberiam que não era pra faltar e era pra pararem o que estivessem fazendo e ir. E sei que todos iriam.
Calculando de onde eu estava e a velocidade que estava disposto a andar, calculei treze minutos até chegar lá e me pus no paço.
Agora, depois que aceitei e parecia que finalmente havia digerido aquilo, parecia que tinha chegado ao nirvana. Não sentia nada. Mas não o nada ruim da depressao mas o nada bom da felicidade simples e crua. E era muito bom aquilo.
Após onze minutos eu virava a esquina para chegar ao me destino e estavam todos os cinco ali. Coloquei a mão no bolso e contei, seis charutos. Impressionante como as coisas estavam ajeitadas.
Os que estavam sentados se levantaram dos degraus que conduziam para a porta de entrada da casa da louca que estava comigo por tanto tempo e os que estavam escorados no corrimão e no carro, apenas olharam para mim e também se ajeitaram para ouvir o que viria, afinal, a mensagem se firmava grave.
Um deles, o que eu mais confidenciava tudo e sempre sabia das coisas, por obra do destino/universo quem sabe, ja com um sorrizo por provavelmente ter concluído do que se tratava, abria a porta do carro e pegava uma garrafa de Jack Daniels e copos de whisky. Sim ele acertara, ou sabia.
Todos olhando sem entender direito aquilo, e recebendo cada um um charuto de minha mão e pegando com a outra um copo, se entre olharam e, após eu serví-los com dose dupla do meu whisky preferido, tudo isto com um gigante sorrizo no rosto, disse:
- Vou ser pai.
No início apenas o que sabia, que também estava com um sorrizo, me abraçou me parabenizando. E quando eu estava acendendo o meu charuto e fui acender os deles, eles entenderam que não era piada, ou simplesmente entenderam tudo aquilo, ou a ficha caiu, e me congratularam com abraços, socos e muitas brincadeiras e zuações. No fim, brindamos e aproveitamos os charutos pelo tempo que cada um quis e então apenas nos olhamos.
Tanto tempo juntos assim era uma coisa rara. Ainda mais um grupo tão grande.
Sempre estavamos distantes pelos afazeres da vida e pelas famílias de cada um, mas sempre que éramos convocados aparecíamos sem nem perguntar o por que. Por sorte, hoje, ninguem estava viajando. Ou seria o destino se encarregando de fazer tudo dar certo também? Não importa. Apenas o que importava era que estavamos ali e entramos para aproveitar a pequena festa comemorativa que estava sendo feita pela mãe de minha louca.
- E quem diria tudo isso começasse a acontecer ein? - disse a eles, pois eu era o primeiro a ter um filho. Todos riram e se entreolharam novamente. Apenas isso era necessario entre nós para nos entendermos.
E as coisas denovo tomaram seu tempo normal, sua significancia normal e a rotina normal. Mas antes, naquela noite, a frase que mais se foi ouvida foi "nóóó se lembra daquele dia que nós.." seguidas sempre de muita risada.
E se foi.
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