..precisei de algum tempo para organizar e buscar as memorias em minha mente. E quem não precisaria?
Passando por tudo que tenho passado, acho que pessoas se quer conseguiria se manter sãs por mais algum momento. Nem sei como consigo e de onde tiro forças para não simplesmente desistir.
Então, tomo folego e me concentro novamente, as palavras deveriam ser ditas exatas e a pronuncia quase impecavel.. se não tudo estaria perdido. E garanto que não gostaria de ser o responsavel pela fulga desta coisa por aqui. Ou em qualquer lugar.
Uso o tempo que tenho e o que pareço não poder delongar, para pensar e conseguir manter a mente limpa e concentrada.. alguns minutos depois, está feito.
A paz retorna ao lugar e eu consigo até sentir o ar do quarto ficando mais leve, menos denso.. mais puro e normal. Olho para os pais da menina incrédulos com os olhos arregalados e marejados de tantas lagrimas e digo com um sorrizo no rosto:
- Está tudo bem.. acabou.
Mesmo assim eles não tiram os olhos fixos de sua filha, que até a alguns minutos atrás não se podia dizer nem se era uma menina. A reação é normal, iria estranhar mais se eles aceitassem mais facilmente o ocorrido... teria de matá-los provavelmente. Nos adultos é quase impossível retira-los.
- Como vamos poder te pagar? Dvemos tudo ao senhor!
- Não precisam e não sou senhor, apenas faço o que devo fazer.. mas talvez algum dinheiro seria de bom agrado. Afinal, todos temos contas a pagar.
- Sim sim, claro, quanto pedir!
..tsc...quanto pedir. Sempre a mesma historia. Dona, se tivesse idéia do quanto eu gostaria de pedir.. mas sei que não teriam e sei também que talvez seria pedir demais. Afinal, é apenas material:
- O quanto achar que valha o que foi feito.. - esta era a melhor maneira de não sair com pouco nem com mau olhado.
- Tudo bem, espere, vou fazer um cheque, querida fique aqui com a Lu.. - o marido sai meio exitante e olhando para mim.
- Não se preocupe, eu a salvei, por que iria fazer mau agora? - disse quando não consegui mais suportar aqueles olhos de desconfiança. Sempre desconfiam.. mas por que diabos de mim? Oras..
Alguns instantes depois o pai retorna com um talão e caneta em mãos repetindo a pergunta:
- Quanto devo escrever?
- Já disse, o quanto acham que valha. - ja fitava a janela não vendo a hora de sumir daquele lugar.
- Mas não tenho idéia de quanto.. qual é a media que você recebe?
- Olha meu camarada, não vou ficar falando preços e comparando pagamentos.. eu recebo, saco a grana e pago o que tenho de pagar. As vezes ate me resta algo para algum divertimento ou poupança para emergencias, mas é isso. Se não sabe quanto vale a droga da vida da sua filha, então temos um grande problema. - disse sem nem ao menos olhar para eles. Apenas fiquei escorado na janela olhando a chuva cair la fora.. eu precisava dela.
Um silencio mortal, para mim ate confortante, pairou sobre nós e apenas o barulho do risco da caneta cortava aquilo. Sei que tinha destruido minha imagem para eles, mas que se dane, se precisassem denovo, cobraria mais e sei que sou o unico que procurariam.
- Aqui.. coloco em nome de quem?
- Saque ao portador, vou pegar esse dinheiro logo pela manhã.
Os pais se entre olham e olham para a filha.
- Que garantia temos que ela vai ficar bem?
- Nenhuma. Não sei como aquilo foi para ali. Ela pode ter evocado, alguem pode ter a usado para algum ritual ou, em um azar muito grande, pode ter sido escolhida por ser sensitiva.
- Então quer dizer que tudo pode voltar?
- Voltar não, mas acontecer denovo. Seria outro. Estes renegados sempre caminham por ai a procura de gente imbecil o suficiente para eles passarem pra trás ou chama-los.. ou as vezes, sensitivos que são fracos ou por nao saberem que são, ou por serem fracos mesmo.
- Mas e então...?
- Não vou garantir. Olhe, vou procurar saber se teve algum ritual por perto ou coisa do tipo.. ou se tem alguma coisa que ligue a essa garota. Se tiver, eu volto e falo o que tem de ser feito, se não, volto se precisar voltar.
- Certo.. o..obrigada. - diz a mãe timidamente. As primeiras palavras desde então, parecia estar voltando a si.
Pego o cheque e vou me dirigindo à saida mas paro um instante para dizer um "não há o que agradecer, mas, denada" e vou embora. Preciso da chuva para descarregar energias e refrescar.. era uma das unicas coisas que revigoraria depois daquilo.
Me tornar um exorcista não foi fácil e não é facil continuar a ser um.. você acha que viu de tudo e que está preparado com filmes, jogos e livros mas está enganado. Quando a coisa esta acontecendo na sua frente e depende de você para que não piore, aí sim que se ve se você é hapto ou não.
Embrulho o cheque em um plastico e vou caminhar pelo parque na chuva.. a natureza limparia tudo de minha mente e sentimento.... então retornaria para casa para dormir.
Era tudo o que eu precisava.
...mas quem disse que conseguiria?
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