quarta-feira, 9 de maio de 2012

Contos do Após Fim do Mundo (?) [fragmentos]

...e então, do mormaço e da calmaria extrema que se tornara tudo aquilo ao redor de qualquer coisa, eu desperto novamente. Confesso que de certa forma um tanto alarmado olhando para os lados e tentando entender um pouco melhor ainda o que se passava. Talvez tentando descobrir se estava sonhando ou não... afinal, os sonhos estavam sendo a verdade do que eu já havia vivido e a minha realidade se tornara um pesadelo muito pior do que eu gostaria de ter imaginado.
          Tudo bem que já se passaram alguns dias, mas ainda sim eu tenho de me policiar a tentar encaixar tudo no lugar das tarefas simples e necessarias que se tornaram obrigatórias no iniciar de cada dia:
# Janelas? Checadas.
# Portas? Checadas.
# Suprimentos? Checados.
# Água? Chacada.
# Movimentação exterior? Checada.
# Segurana no perímetro? Checada.
Tudo certo para a segunda etapada do dia: começar a limpeza e preparar algo para comer. Não que isso fosse um trabalho demorado ou difícil, e tinha de ser bastante rápido e fácil, uma vez que a qualquer momento poderia ter de para-los..

          Tudo pronto, limpo e cozido, finalmente tenho um desjejum a ponto de se dizer satisfeito. A muito não tinha isto. Estar sempre viajando e acampando não deixa jeito de poder ter algo armazenado direito para se ter prazer no que se come. Mas nesses três dias que consegui um abrigo nesta cidade, graças a aqueles bons velhos que me cederam sua casa, eu tenho tido um pouco de paz.
Degusto os ovos, o queijo e o pão como se fossem minha ultima refeição. Ou a primeira. A quanto tempo não sentia essa gosma mesclando com o trigo em meu paladar? Uma coisa tão simples que quando privada, assim como tudo que se tem sempre, se torna tão magnífico quando reavido.. a vida é mesmo muito interessante quando analisada em perspectivas diferentes. O simples sorver do suco industrializado, sabor artificializado e aroma enganoso, de maracujá faz meu corpo estremecer de contento e até me faz agradecer pelos cinco e noventa e sete que me custaram este café da manha.
         Após alguns minutos absorvendo todo esse inicio de manhã, fitando o céu limpo e claro de uma manha de outono pela persiana entre-aberta, me levanto e faço poucos alongamentos, afinal o dia apenas começou. Limpo o que sujei, não é apenas pelos donos da casa não estarem mais aqui que eu poderia deixar a imundice, e vou tomar um banho... um banho... com água morna para derreter todo o gelo que se encrostara em meus musculos e pele. Sei que apenas a duas semanas e meia tive um banho, mas mesmo assim eu clamo por isso desdo primeiro dia sem.. é um dos privilégios que quando tomados, fazem uma falta sem condição.

         Desperto no que parecia ser o final da tarde. Devo ter relaxado tanto com tanta mordomia que fui embalado pela preguiça e aconchego e adormeci tão profundamente que nem percebi o tempo passar. Minha sorte é que aquela cidade ainda estava longe de tudo, uma bela cidade do interior. Como a maioria é: aconchegante, pacata, amigável.. me faz ate mesmo esquecer o que está por vir. Mas minha mente não deixa que isso aconteça... não há como apagar todo o horror. Tendo todas as visões de volta, me coloco de pé em um sobressalto e vou verificar tudo denovo. Segurança nunca é demais.
          Tudo em ordem decido ir ao mercado próximo, comprar algumas coisas para meu deleito extendido, afinal sabe-se la até quando isso irá durar, tenho de aproveitar ao máximo.
          Três quadras dalí, todas as ruas seguras e sem nenhuma movimentação estranha, ou alguma movimentação, entro no mercado como um arqueólogo em uma tumba: tudo é encantador. Vejo as prateleiras cheia das melhores obras da indústria alimentícia para uma infancia obesa e cardíaca, mas desde quando isso foi motivos para não serem simplesmente deliciosos? Pego um carrinho e vou enchendo sem pensar com o que, apenas queria tudo aquilo. Ao terminar com o carrinho quase com o segundo terço repletos apenas de porcarias que estragariam, e muito, meu estomago, mas deixariam minha mente em êxtase, penso ter escutado alguma coisa. Paro tudo e retomo a postura que tive de adotar desde sete semanas atrás e me ponho em total estado de concentração. Eu havia escutado algo sim, mas o que? E quando? Penso em tudo, refaço todo o tempo que se passou desda entrada no mercado até agora... passando pelos bolos, depois pelos cereais, pelos chocolates, salgadinhos, doces enlatados.... sim, algumas latas e caixas caíram, deve ter sido estes barulhos que eu nem havia percebido e percebi agora. Chego no fim da divisória dos corredores e vejo algumas caixas caídas do outro lado. Caixas do cereal que pegei com tanta vontade que devem ter caído do outro lado fazendo todo o barulho que me preocupou.. deve ter sido apenas isso mesmo.  Quem me dera pudesse ser essa a verdade.
       Quando fui me virar para voltar feliz à minha feliz irrealidade de estar a salvo novamente, o cheio putrefato enche minhas narinas e o desespero e panico começam a tomar a conta de meu cerebro. Eu estava em grande perigo. E ao religar rapidamente a visão, pois o fedor havia me feito perder rapidamente os outros sentidos, vejo que vinha em minha direção uma daquelas  horrendas criaturas que venho tentando tanto esquecer e tentar fugir. Vinha ela em seu passo lento e doloroso, chegando até a beirar a pena por um ser que parece em tormento e dor extremas, mas pena seria a última coisa que sentiria por algo deste tipo.. não por não merecer, pois em alguma época aquilo já havia sido alguém que talvez mereceria esta pena, mesmo que fosse por mérito de uma ótima lábia para se safar da punição. Mas esta criatura não, por minha sobrevivencia, não devo ter pena de nenhuma pois ela estava ali para me matar, sem pena, sem remorso, sem compaixão, sem sentimento algum, uma vez que eles apenas existem para se alimentar.
      
          Sem demorar muito tempo, empurrei o carrinho de compras na direção do zumbi e me virei para começar a correr, não iria me atracar em combate sem saber o que me aguardava no mercado, aprendi da pior maneira que onde há um, provavelmente haverá mais, muitos mais. Pulo por dentro do freezer de frios e me abaixo do outro lado, a criatura quando termina de se desvencilhar do carrinho me procura com certa dúvida no olhar, regatando uma dúvida que as vezes me pergunto: ainda existiriam vestígios de humanidade neles? Seria reversível esta maldição? Mesmo em estado decomposto que se encontram muitas vezes? Bem, não sou biólogo para tentar desvendar isso, e já passei por muitos apuros para uma esperança deixar que eu não mate a todos eles que eu conseguir. Então me abaixo e vou esgueirando ate a ponta do freezer para ter cobrir um perímetro do mercado. Parece que há apenas um. Sem sinal de corpos, nem sangue, nem bagunça ou movimento. Parece que este me seguiu la de fora e eu não percebi. Teria eu amolecido por estar tão bem? Talvez... o bem estar é uma droga muito perigosa que abaixa nossas defesas.
         Passo rapidamente para um dos corredores e vou patrulhando o mercado. Puxo a faca da bainha presa à minha cintura na parte de tráz. Nada. Entro em outra ala. Nada. Passo em outra sessao. Nada. E assim até chegar onde estava e.... nada. Onde ele se meteu? Ele não me seguiu, se não teria o encontrado no meio da ronda! Como poderia ter desaparecido assim? vejo um rastro de algum líquido no chão e vejo que há uma poça onde se encontra o carrinho de compras. Onde estava a criatura. O rastro vem do canto dessa sessão, ate uma parte que não é de acesso ao público. Bem, a criatura deve ter voltado de onde veio, e é para lá que vou.

         Com cautela chego a uma porta com algumas tiras grossas de plastico. Se não me engano alí é o estoque do frigorífico. Claro, onde mais estaria um criatura dessas? Um estoque gigantesco de carne crua a seu dispor! Deve ter escutado o barulho que fiz e veio ver se conseguia alguma carne fresca... e prometo que não conseguirá nunca mais carne alguma!
         Entro no frigorífico com um estardalhar para chamar a atenção da aberração e logo me arrependo pela tola idéia de que apenas ele estaria ali por ter sido apenas ele que foi atrás do barulho que fiz. Algumas outras criaturas estavam a banquetear um animal que arrisco dizer ser um cachorro e um gato e o que restou de algum morador provavelmente. O que fora à caça estava de pé observando e provavelmente salivando querendo algo que não estivesse como pedra. E eis que o prato principal chega em grande estilo. Todos param a degustação e emitem um som macabro de ameaça se colocando à minha caça. Eu sabia que estaria perdido, caso não tivesse certeza que a porta do mercado era resistente. Corri o mais rápido que pude e quando passando da porta, pulei para agarrar o ferro que fazia a porta corrediça descer e fechar o estabeliecimento, quase escorregando e perdendo a única chance que tinha. A porta quase fechada seria o suficiente para chegar na casa e me armar direito, os zumbis são criatura estúpidas e demoram para decifrar o mais óbvio dos quebra-cabeças. Até mesmo se abaixar para passar da porta corrediça, ou levantá-la.

        Antes de entrar na casa, arfando o que parecia ser enxofre, me certifico que não há mais destas coisas pelas ruas e um breve alívio me acalma. Entro na casa e tranco tudo. Fecho persianas e cortinas. Arrumo o que vou levar e preparo as armas leves. Paro por minutos esperando qualquer baulho ou sinal de que fui seguida.. nada. Era hora de ir. Abro a porta com o máximo de cuidado e vejo que as ruas estam desertas denovo. Parece que os zumbis se perderam ou desistiram de me encontrar.. melhor para mim. Vou até ao posto, perto do mercado, para ver se eles estariam por lá.. não tive tempo de ver quantos eram para saber se armado eu daria conta ou não. Não custaria muito averiguar.
        Ao chegar no posto vejo que a porta ainda continuava fechada. Parece que estes eram mais burros do que o costume.. ou talvez não, não há como saber.
        Decido passar na loja de conveniencias do posto, apenas para pegar algumas barras de cereais e coisas que me ajudariam na viajem e me deparo com um carro familiar... não me lembrava direito onde havia visto ele.. penso, me esforço nas memorias... quando lembro: o carro dos velhos que me cederam a casa! Por isso que demorei a lembrar, apenas o ví de relance quando chegei a noite e logo de manha eles já haviam partido! As portas abertas e a bomba de gasolina jogada no chão e... um rastro de sangue seguindo até o mercado. Os malditos os pegaram..... os privaram de uma aventura e os deram uma morte dolorosa... eles... devem... PAGAR!
        Com fúria deixo a mochila no chão e pego apenas a pistola e o facão indo em direção ao mercado. Abro a porta em um solavanco e ja grito pelos malditos. Dois estavam fora rondando os corredores, um tiro certeiro em cada, no centro do cerebro. Três aparecem ensandecidos vindo em direção ao barulho, dois apenas me veem e caem sem um dos olhos, o outro se aproxima, por eu o deixar, e perde a cabeça com um corte reto em seu pescoço. Algo escorre da artéria. Sangue podre e parcialmente coagulado.. um fedor descomunal. Ainda faltavam alguns, eu sabia, pelo menos dois. Procuro no frigorifico, mas nada. Talvez tenham se agaichado e escapado quando fechei a porta.. o estranho é que não os encontrei quando vinha para cá. Bem, ao menos são cinco a menos.. e creio que os que mataram os velhos foram dois que estão aqui, eles que estavam comendo os restos de humanos que vi quando entrei pela primeira vez no frigorífico.
        Após esperar um pouco para acalmar os nervos e ver se os ultimos voltariam, retorno onde deixei a mochila e volto a me arrumar para seguir viagem. Penso em como os velhos devem ter sido pegos desprevinidos por algum dos zumbis e, gravemente feridos, foram ao mercado onde achavam que estaria seguros e se encurralaram quando entraram no frigorifico. Uma raiva começa a tomar conta de mim mas me controlo e vou afinal para a loja de conveniencias pegar algo que me seja útil e de fácil carregar e, ao entra, novamente o cheiro incunfundivel se apodera de minhas narinas. Saco o punhal e ligo a lanterna afrouxando a mochila e a colocando lentamente no chão. Vou lentamente adentro do lugar procurando os malditos que faltavam quando, ao virar uma das pequenas alas, me deparo com uma cena horrível: um dos velhos estava com o abdomen aberto e suas tripas reviradas, parte de um dos braços rasgado e uma das pernas faltando. Um mínimo de embrulho no estomago senti pelo choque da cena. Viro o olhar e me recomponho. Tomo folego e olho novamente. Sim, era um dos velhos.. talvez ela tenha sido pega primeiro quando fazia o mesmo que eu agora e seu marido foi o que tentou encontrar refúgio no frigorífico quando atacado, depois de perceber que nada podia fazer por ela. Uma subta tristeza me vem e penso no quão horrendo tudo está mudando e um assombro maior toma conta de mim, quando rapidamente esqueço essa tristeza por ser perigosa demais para a minha sobrevivencia.. sem perceber, havia me aproximado e estava bem perto dela, olhando em seus olhos mortos. Os fecho em respeito e faço uma falsa prece que talvez tivesse alguma importancia para ela, e para mim, e então quando começo a me levantar novamente, a velha começa a se contorcer e emitir alguns grunhidos estranhos tentando me agarrar da forma que fosse possível e então... para novamente. Removo o punhal da parte de cima do cranio dela, o limpo, a deito, fecho novamente seus olhos e me levanto, olhando para aquela cena estranhamente triste por alguns segundos antes de me virar e terminar o que tiha ido fazer lá.
        Terminando de pegar o escencial para ir embora, quase saindo do estabelecimento, ouço barulhos de onde estava o corpo da velha. Penso duas vezes antes de ir, pois animais zumbis são complicados demais para enfrentar, quando me deparo com o maldito que havia jurado não deixar nunca mais caçar carne alguma... ele estava terminando de aproveitar o que restara da velha.. "ora seu maldito" disse chamando sua atenção, e a conseguindo "você é o último dos que estavam aqui, certo? E interessante é que você era o que eu mais gostaria de saborear a destruição, e não conseguiria no estado berserker que eu estava quando ataquei o mercado." a criatura se levantava cambaleante e lentamente em minha direção, considerando a chance de conseguir alguma carne minha que fosse "e agora, eu tenho toda essa diversão.." ao dizer isso, corto os dedos da mão que estavam esticados para frente, mas parece não fazer diferença para ele, o chuto no peito e o faço cair sentado e finco a faca onde estaria seu coração... e nada.

       - É seu maldito... parece que você irá tirar toda a graça disto, já que já está morto. - e com alguns ultimos grunhidos e rosnados dele, retiro o punhal de seu peito e cravo na lateral de sua cabeça, exatamente em sua tempora. O corpo pende novamente sem reação. Retiro o punhal, o limpo e piso com toda a força em sua testa, uma, duas, três vezes, ate quebrar o cranio e fazer abrir e escorrer a gosma que é a mistura de seus sangue coagulado com o cerebro podre. - isto é o máximo de diversão que consigo tirar disto.

       Ao cair da noite já me encontro a alguns quilometros da saída da cidade. Sei que viajar a noite não é nada seguro, mas permanecer na cidade também parecia não estar mais sendo a melhor das opções... talvez eu pudesse me abrigar novamente ate de manhã na casa dos velhos mas... sei la... preferi partir e acampar em algum lugar um pouco mais isolado. Com as armadilhas de latas e arame vou conseguir saber de qualquer ameaça que talvez tente me atacar a noite.. na casa eu poderia do nada estar rodeada e ter de pensar bastante para conseguir sair. Ou sei la.. so sei que não queria ficar por la... ou tivesse entrado em panico mesmo.

Sei lá.

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